DISCURSOS GASTRONÔMICOS E MACARRÔNICOS

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O casamento de Justinha

O fato ocorreu nos anos sessenta. O Cabo Vilmar e Justinha eram amigados há 16 anos. Tinham filhos e uma vida de casados, embora não no papel, conforme pediam as leis da moral. Chegaram do interior da Bahia para uma vila militar, a menos de 100 km da capital paulistana. Aos poucos iam se adaptando bem. Não Justinha. Afinal, a vida continuava a mesma, sem direito a nenhum tipo de ambição. Era mulher de pouca prosa, assim meio tristonha, companheira submissa e cumpridora das tarefas familiares. Os filhos já tomavam forma de gente grande, tudo sob o olhar frio e a supervisão severa do militar durão. Acontece que seu superior, o Tenente Bruno, italianado que era, vivia aconselhando o baiano a regularizar as coisas, fazer tudo de papel passado, inclusive com a bênção da Santa Igreja:
- Você é marido e pai, Vilmar. Documenta isso!O cabo coçava o queixo, sempre pensativo e esquivado da idéia, mas um dia, convencido da sugestão do tenente, marcou a data da festança.
Mandaram trazer família, camarão, peixes, galinha, mocotó, coentro, dendê, carne de sol, feijão, castanha, côco, inhame, aipim, farinha, pimenta, cachaça do melhor alambique, doce de tamarindo, bombocado, cocada, queijadinha, bolo de tapioca e compotas diversas.
O grande dia chegou. Na saída do cartório, papéis assinados, Justinha vira pra Vilmar e anuncia em altíssimo e bom som:
- Nego, tu te arrombaste. Tu vai se ver comigo agora!Os padrinhos surpresos explodiram de rir com o gracejo e a espontaneidade da noiva. E seguiram para a festa, que durou dois dias inteiros, até então o maior acontecimento da vida de Justinha.
Baixada a poeira, a mulher virou o demônio. Justinha agora era Justiniana. Pôs-se a beber todo dia, arrumou emprego, batia com a mão aberta na mesa quando falava, mudou todas as regras e botou a casa de pernas pro ar. Sentia-se gente pela primeira vez. O papel carimbado embalou como um presente suas idéias mais vingativas e embrulhou o homem direitinho. O cabo Vilmar ficou sem controle das coisas, perdeu o chão. A batuta masculina que orquestrava a casa murchou. Se ele pedisse comida ou roupa lavada ouvia da mulher:
- O fogão e o tanque estão às suas ordens.
Passaram a se engalfinhar com freqüência:
- Vou anular esse casamento!
- Anula, covarde. Tu não é homem que banca uma mulher no papel!
Mas ele nunca teve coragem. Foram feitos um para o outro, assim como o jumento para a cabra. Morreram de desamor.


Foto: Regina Bui

2 comentários:

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

e olha que se pirigar eu conheço a Justina?

kkkkkkkkkkkkkkkkkk

adorei

cabra da peste

Regina Bui disse...

É possível, pois a história é verdadeira. Juro! Meu padrinho que contou, o Tenente Bruno...