Um Divã na Cozinha

Muitos cozinham como terapia. Falei em estudar psicologia como passatempo, mas temo tornar-me muito técnica. Já imaginou, textos com gosto de publicação científica tocarem na língua do entendimento? Prefiro a sensibilidade amadora e a filosofia de porpeta: enquanto enrolo, vou analisando tudo. Aqui as palavras valem mais do que a comida. Elas salgam a prosa de modo a forrar, desejo eu, estômagos famintos de dedo-de-moça, aroma de flores e divagações.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Imperdível

O Baba Ghannuge (pasta de berinjela), uma das principais entradas da cozinha libanesa, não pode faltar em nossa mesa como petisco em dia de visitas.
Porção para 6 pessoas:

2 berinjelas grandes - de casas escuras e lisas, pois os pontinhos amarelos sugerem a entrada de bichinhos brancos
½ copo de Thaine (creme de gergelim)
½ copo de suco de limão
2 colheres (café) de alho amassado
Azeite de oliva extra-virgem
Sal a gosto

Modo de fazer:

1 – Lavar as berinjelas, furar a casca com uma faca para não abrirem no forno
2 – Colocar as berinjelas numa assadeira e levar ao forno até que fiquem murchas e macias
3 – Abrir a casca e retirar toda a polpa com o auxílio de uma colher
4 – Bater a polpa no liquidificador com o Thaine, o alho, o suco de limão e o sal
5 – Acrescentar azeite sobre a superfície e servir com pães árabes




domingo, 29 de novembro de 2009

Corra Lola, corra!

Quem ainda não assistiu Julie & Julia em cartaz nos cinemas? Então corra!

Por aí

Sim, sim, esse blog está meio abandonado, admito. Os dias podem ser eternos, monótonos ou cheios de compromissos, mas o tempo passa rapidamente, de uma forma ou de outra. Tenho ganhado muitas coisas: abóboras aguadas - não sei que raio de espécie fajuta é essa que a vizinhança insiste em colher no meio de terrenos selvagens-, vidros de homus feito em casa, pão de mandioca e mimos do Nordeste - a amiga Marília trouxe do Recife uma farinha de mandioca amarelinha e leve, trouxe também bolo de rolo que me serviu em sua casa.
Qual é a invenção original? O rocambole mineiro ou o bolo de rolo pernambucano? O primeiro parece ser a versão do segundo, só que mais espaçado. Não que ele seja menos gostoso.
A gente ganha o dia quando coisas diferentes não nos desapontam: achei num açougue um linguição recheado com provolone, embrulhado em papel celofane para assar no forno. Depois de douradinho, fatiei e servi com purê de mandioca bem molinho, surrado no batedor de arame. A linguiça ganhou nota 10.
E a coisa mais surpreendente dos últimos tempos foi a coalhada seca da Samia, proprietária do restaurante Al Sultan. Não me recordo de ter provado cremosidade igual.

Mais uma

Histórias continuam indo e vindo. Gabi, uma gaúcha que cresceu no meio de alemães de bochechas coradas contou que a mãe estava num vilarejo dos Pampas e serviam filé grelhado no local, daqueles altos, gigantescos e suculentos. O garçom apoiava o prato com a palma da mão e o polegar segurava o bife do lado de cima. Imediatamente a mulher retrucou:
- Mas você está com o dedão na minha carne!
E o garçom, com aquele sotaque inclinado e nervoso dos gaúchos justificou:
- Então, tu queres que ele caia de novo?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Bracarense, Estadão e City Bar

O que é que esses botecos tem em comum? O último, apesar de não ser tão conhecido além das terras que limitam a cidade de Campinas, representa tantos outros que existem por aí com os moldes dos primeiros. Quem não gosta de afrouxar a gravata, no caso dos paulistanos, e entrar num ambiente informal e semi-aberto, usando sandálias de dedos, como é o caso dos cariocas? Um chão sujo de guardanapos amassados que voam o tempo todo, mesinhas e cadeiras amontoadas, dificultando a passagem dos garçons que carregam uma bandeja de tudo, um balcão que por trás da vitrine exibe pernil assado, croquetes de carne, empadas, coxinhas e bolinhos de bacalhau - sempre os melhores do mundo - cerveja e chopp que descem congelando a garganta e uma infinidade de sanduíches nos cardápios grudentos, de tantas mãos que por ali passam. E barulho, muito barulho. A quantidade de funcionários que aos berros vão se entendendo dentro e fora dos balcões parece se igualar com a dos clientes, sempre aguardando na mesa a chegada de um novo pedido. É descontração pura que, quando estamos no pique, faz as segundas terem cara de sexta, porque num ambiente assim você nunca lembra que existem segundas-feiras.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

As coxas gordas na intimidade

Você que é vegetariano e tem alguma tendência a problemas cardíacos, evite o texto. Ele contém descrições de cenas muito chocantes.
Comer frango, justo aquelas partes com osso, é tão íntimo quanto ir ao banheiro. Quem degusta uma grande coxa ensopada num restaurante muito arrumadinho (pode ser um pato ou uma codorna, inclusive), faz uso de garfo, faca, destreza, paciência e muita formalidade, sem dúvida nenhuma.
Se o ambiente for uma churrascaria mais descontraída, arrisca segurar a extremidade do osso para abocanhar as partes molinhas e úmidas que se soltam do osso com facilidade. E o devolve no prato parecendo um grande cotonete - pelo menos as crianças fazem isso em público, sem culpa, e quem não faz, fica com vontade - porque roer as cartilagens das pontas nem pensar!
Devorar um frango à passarinho num boteco também não é o momento mais íntimo e revelador de um apreciador das partes tostadas da ave? Lambuzam os dedos sem medo algum, pois outros clientes fazem o mesmo no balcão.
Mas dentro de casa é o lugar e o momento dos fãs do tutano cozidinho que se regozijam em glória: quebram e sugam todos os ossos sem perdão nem dó, e fortalecem secretamente os dentes, prontos e afiados para uma próxima vez.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Kreativ Blogger Award


Ganhei gentilmente das meninas do INTEIRATIVA uma indicação para receber o Kreativ Blogger Award, que é um reconhecimento da blogosfera ao trabalho uns dos outros. Para ter o selo no blog, há uma lista de 7 itens a serem cumpridos. São eles: 1. agradecer a pessoa que te indicou; 2. copiar o logo e colocar no seu blog; 3. linkar a pessoa que te indicou para o prêmio; 4. listar 7 coisas sobre você (que possam achar interessante); 5. indicar outros 7 blogs para o Kreativ Bloggers; 6. postar links dos 7 blogs indicados; 7. deixar um comentário em cada blog para que saibam que você os indicou.

Meus blogs indicados são todos de culinária, pois resolvi homenagear a todas aquelas que queimam as mãos pela simples paixão de cozinhar:

Sobre mim:
1 – Preciso dizer que gosto de cozinhar?
2 – Venci uma depressão braba que durou anos, daí o nascimento do blog. Escrever, para mim, também é terapia.
3 – Adoro animais e bichos de estimação, mas não gosto de passarinhos engaiolados.
4 – Sou dessas que acha que o melhor lugar do mundo é a casa da gente.
5 – Detesto acordar cedo (mas fazer o quê?)
6 – Minha sobrinha disse que nunca me viu brava. Sei não...
7 - Não troco meus quarenta anos por nada.

sábado, 10 de outubro de 2009

A gente vê cada uma...

Vivo repetindo que deve ser tão fácil virar monge, ficar recolhido no topo de uma montanha e conseguir manter o equilíbrio estabilizado, sem ter que conviver com chefe, cunhado, filhos, que até eu atingiria a iluminação divina rapidamente.
Mas saindo do meu eu interior e voltando para o interior da cozinha, lembrei-me da história de um cliente mau-humorado que aparecia toda semana no restaurante onde trabalhava. Ele sempre reclamava com os garçons sobre tudo: comida, serviço, vinho, barulho e sabe lá Deus o que mais. Mas era um cliente super fiel. E tirava todo mundo do sério. O que é que poderíamos fazer?
Um dia, um garçom novato entrou na cozinha perguntando se era possível preparar um espaguete ao pesto, prato que não fazia parte do cardápio. Eu já sabia que o pedido era do tal cliente, que em quinze minutos estava sendo servido. Depois de um tempinho, chamei o garçom e disse:
- O negócio é o seguinte. Você vai chegar até a mesa e perguntar se ele gostou do espaguete. A resposta será NÃO! Mas não se assuste, porque ele nunca gosta de nada mesmo.
O garçom me olhava com cara de espanto. Prossegui:
- Pergunte em seguida, com muita delicadeza, se ele aceitaria uma outra sugestão. Ele recusará, pedirá um café e logo depois, a conta.
E assim aconteceu, conforme tudo foi dito, até que o cliente partiu e a tensão do ambiente se desfez.
O garçom retornou à cozinha, todo nervosinho e reclamão, querendo saber por que é que aquele homem frequentava o restaurante se lugar se não lhe agradava, como ele mesmo testemunhou. Romildo, cozinheiro de pavio curto, gritou lá do fundo, com a jugular saltando no pescoço e a faca na mão:
- Esse homem é a pedra no sapato de qualquer funcionário! É o demo de paletó engomado; aquele próprio que pedimos a Deus: “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos de todo o mal...” Mas não. O homem vem aqui e nos tenta toda semana. Só que nós já aprendemos a ficar mansinhos com ele. Agora é tua vez, seu cabra!”

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Super Benvinda

Benvinda, que trabalha em casa, é neta de índio, cabocla forte. Entende de plantação e ervas medicinais como ninguém:
- Pro rim? Que quebra-pedra, que nada! Um bom chá de folhas de pata-de-vaca ou de raiz de feijão andu resolve tudo.
Outro dia me passou uma receita que não faltava no sítio, quando morava com a família no Paraná:
- Refoga a costelinha de porco naquele temperinho básico de azeite, cebola, alho, um tomatinho, uma folha de louro e sal. Quando tiver tudo douradinho, coloca uma tigela de canjica vermelha, "ponhada" de molho no dia anterior, com água e tudo. Deixa cozinhar bem. Depois que destampa a panela o cheiro chega longe...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Qual é o gosto do sabor?

No filme Cidade dos Anjos, o anjo apaixonado observa sua amada degustar uma pêra e pergunta a ela qual o gosto da fruta. Como definir um sabor? Fazer comparações parece ser um tanto limitado – e um grande desafio para quem escreve também: doce, ácido/azedo, salgado, amargo. E a consistência? Crocante, mole/macia/gelatinosa/cremosa, dura, pegajosa.
Sábado estive no Mercado Municipal de São Paulo e deliciei-me por lá, como sempre. Mangostim, pitaia, granadilha, frutas incomuns no nosso cotidiano – pelo menos por enquanto – e, apesar de serem adocicadas como todas, são tão, tão diferentes umas das outras. Como acreditar que Deus privou os anjos de conhecer as delícias desta Terra?
A granadilha é uma fruta colombiana, um maracujá menor, sem acidez nenhuma e bastante doce. Essa foi fácil.
Servi-me também de ostras gigantes, geladíssimas com limão taiti, da banca de frutos do mar, tudo fresquinho. Era só fechar os olhos que você ouvia o barulho das ondas e o cheiro do vento salgado no ar, mesmo com aquele bando de gente se espremendo no balcão. Ondas, vento salgado... muito clichê? Vou tentar de novo. O molusco traduziu, no momento em que ingeri, a sensação da força e dos mistérios das marés e me remeteu através do paladar, àquela atmosfera quente, úmida e salgada que só os ventos litorâneos são capazes de carregar e nos entorpecer por completo.
Na banca de carnes exóticas do corredor ao lado, encontrei pacotes de quilo de línguas congeladas de pato. Duas coisas nos deixam curiosos diante dessas esquisitices: consistência e sabor. A terceira, como conseqüência, é o modo de preparo. Perguntei à vendedora se havia algum segredo:
- Olha, trabalho aqui a vida inteira, mas a chinesada não entrega o ouro.
E agora como o anjo queremos saber que gosto tem língua de pato. Ou não?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Baudelaire, Savarin e o vinho

Em seu ensaio "Do Vinho e do Haxixe", Baudelaire ironiza:

Um homem muito célebre, que era ao mesmo tempo um grande tolo – coisas que andam muito bem juntas, ao que parece, como mais de uma vez terei, sem dúvida, o doloroso prazer de demonstrar – ousou, num livro sobre os prazeres da Mesa, composto do duplo ponto de vista da higiene e da satisfação, escrever o que se segue no artigo VINHO: "O patriarca Noé passa por ser o inventor do vinho; é um licor que se faz com o fruto da vinha."
E que mais? Mais nada: é tudo. Por mais que folheeis o volume, que o vireis em todos os sentidos, que o tenteis ler de trás pra adiante, de costas, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, nada mais encontrareis sobre o vinho na Fisiologia do Gosto do ilustríssimo e respeitadíssimo Brillat-Savarin senão que: "O Patriarca Noé..." e "é um licor..."
Suponho um habitante da Lua ou de qualquer planeta afastado, que, viajando pelo nosso mundo e cansado das suas longas jornadas, pense em refrescar o palato e aquecer o estômago. Quer pôr-se ao corrente dos prazeres e dos costumes da nossa terra. Ouviu vagamente falar de licores deliciosos com os quais os cidadãos desta esfera conseguiram, à sua vontade, coragem e alegria. Para estar mais certo da escolha, o habitante da Lua abre o oráculo do gosto, o célebre e infalível Brillat-Savarin, e ali encontra, no artigo VINHO, esta informação preciosa: O Patriarca Noé... e esse licor se faz... Absolutamente digestivo. Muito explicativo. É impossível, depois de ter lido esta frase, não ter uma idéia justa e clara de todos os vinhos das suas diferentes qualidades, dos seus inconvenientes, da força que exerce sobre o estômago e o cérebro.
Ah! caros amigos, não leiais Brillat-Savarin. Deus preserve de leituras inúteis àqueles a quem ama, é a primeira máxima de um livrinho de Lavater, um filósofo que amou os homens mais do que todos os magistrados do mundo antigo e moderno. Nenhum bolo foi batizado com o nome de Lavater; mas a memória deste home angélico viverá ainda entre os cristãos, quando até os bons burgueses já tiverem esquecido o Brillat-Savarin, espécie de brioche insípido cujo menor defeito é servir de pretexto a uma tagarelice de máximas totalmente pedantes, tiradas da famosa obra-prima.

Após o desabafo e a lavada de Baudelaire, veio o desafio. E existe algo mais para escrever sobre o vinho, depois do texto abaixo? Incansável, o poeta prossegue:

Parece-me por vezes que ouço dizer o vinho: - Ele fala com sua alma, com essa voz dos espíritos que só pelos espíritos é ouvida. – "Homem, meu bem-amado, quero lançar para ti, apesar da minha prisão de vidro e dos meus ferrolhos de cortiça, um canto cheio de alegria e de esperança. Não sou ingrato; sei que te devo a vida. Sei o que te custou de trabalho e de sol nas costas. Tu deste-me a vida, eu te recompensarei. Pagar-te-ei largamente a minha dívida; porque eu sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta sedenta pelo trabalho. O peito de um bom homem é uma morada que me agrada muito mais do que estas caves melancólicas e insensíveis. É um alegre túmulo onde cumpro o meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande reboliço, e dali, por escadas invisíveis, subo-lhe ao cérebro onde executo a minha dança suprema."
"Ouves tu agitarem-se em mim as poderosas canções dos tempos antigos, os cantos do amor e da glória? Sou a alma da pátria, meio galante, meio militar. Sou a esperança dos domingos. O trabalho faz os dias prósperos, o vinho faz os domingos felizes. Com os cotovelos assentes na mesa de família e as mangas arregaçadas, tu me glorificarás altivamente e estarás verdadeiramente contente."
"Iluminarei os olhos da tua velha mulher, a velha companheira dos teus desgostos quotidianos e das tuas mais velhas esperanças. Enternecerei o seu olhar e porei no fundo das suas pupilas o fogo da juventude. E ao teu filho, palidozinho, esse pobre burrico atrelado à mesma fadiga que o cavalo da charrua, dar-lhe-ei de volta as belas cores de seu berço, e serei para esse novo atleta da vida o óleo que reforça os músculos dos antigos lutadores."
"Cairei no fundo do teu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o sulco dolorosamente lavrado. A nossa íntima reunião criará a poesia. Nós dois faremos um Deus, e voaremos para o infinito, como os pássaros, as borboletas, os fios da Virgem, os perfumes e todas as coisas aladas."

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Pasteis de feira

Até quem tem sangue azul aprecia um pastel de barraquinha. Talvez os de sangue azul cintilante nunca tenham pisado numa feira. Não sabem o que perdem. O cheiro quente dos pastéis nos agarra pelo pescoço como cabo de guarda-chuva sem piedade nem dó e o pior é que são irreproduzíveis em casa. Não tem o mesmo gosto, nem a mesma crocância, nem nada. E aquele vinagretinho caseiro que acompanha? Aí mesmo que eu queria chegar. Na verdade não existe coisa mais anti-higiênica. E não tenho razão? Todo mundo enfia a colher dentro do seu pastel mordido e depois coloca no vinagrete de volta. O freguês do lado faz a mesma coisa. Fazer o quê? Vista grossa ou pastel sem emoção.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Doces momentos

E o que dizer de dois aniversários em família durante o feriado nacional? Começou na sexta. No jantar, filé de San Peter assado na folha de alho-poró e tomilho pra soltar um cheiro, seguido de sopa de palmito com cubinhos de mussarela e queijo parmesão ralado.
No sábado à noite, patê de ervas frescas (cheiro verde, alecrim, manjericão e sálvia), pão italiano, batatinhas cozidas com casca, temperadas com muita páprica picante, azeite, um pouco de balsâmico e açúcar mascavo e por fim um creme quente de três abóboras (moranga, cabochan e paulista) com pedaços de gorgonzola para quebrar o friozinho que veio com a chuva.
No domingo o almoço foi à base de berinjela fria curtida no vinagrete, frango aberto braseado, arroz com alho queimadinho e farofa amarela úmida, daquelas bem acompanhadas de bacon, ovos, coentro e tudo mais que tinha de direito.
E na segunda, quando o sol decidiu aparecer caloroso como sempre, o sabor de comida da vovó permaneceu: feijão branco ensopado com linguiças defumadas e lombo de porco salgado, acompanhados pelo fiel e incansável arroz branco soltinho de tudo.
Eu queria crer que a vida é como cozinha: simples de tudo. Basta saber salgar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Bichos, bichinhos e bichões

Oi, oi, estou de volta depois de um curto período de adaptações. E a sensação de alívio com tanta tralha jogada fora, coisa que acontece quando as portas dos armários não fecham mais ou quando você muda de casa.
Meu novo lar fica num condomínio de mini chácaras, no meio da natureza, com ruas de terra, a 20 minutos do centro da cidade – essa é a vantagem de morar no interior.
Agora tenho limão-vinagre diretamente do pé, acerola, jabuticaba e seriguela, se é que a árvore um pouco sofrida e muito podada arrumar forças para dar os frutos em sua época. Tem rede na varanda e no lugar de muros altos e fechados, alambrados com cercas vivas separando um terreno do outro.
E não é nada difícil se acostumar aos novos barulhos daqui: galinhas d'angola, grilos, corujas, sapos, espécies diferentes de pássaros que soltam alguns pios inclusive a noite e outros sons inimagináveis. Uma certa madrugada acordei com um barulho forte de pancada abafada na terra seca e os cães que latiam loucamente me fizeram levantar. Olhei pela janela da frente e vi um cavalo marrom andando meio cabisbaixo e pensativo, sem dar a mínima para quem o estranhava, no caso eu e meus cachorros.
Depois percebi que esse trânsito de animais soltos é comum por aqui, pois um boi branco, daqueles de cupim bem alto, passou despreocupado em pleno fim de tarde, vindo não sei de que lugar e indo sabe-se Deus para onde. São treinados? Trabalham por conta? Fugiram de algum sítio ou apenas vivem a vida como bem entendem?
Tenho que me familiarizar com esse mundo totalmente oposto do universo urbano para não me sentir uma caipira.
A natureza impõe um respeito tão grande que você sente dó de jogar Rodiasol em pernilongo. Espero ter muitas histórias boas para contar.

sábado, 22 de agosto de 2009

O polvo e o caminhão de mudanças


Comprei um polvo no susto. Estava lindo e fresco. Um quilo e novecentas gramas de tentáculos com aquela cabeça imensa de alien. Duas possibilidades de prepará-lo: ou hoje na casa da Carô, que nos convidou para um fim de tarde, ou ontem, como petisco de saideira daqui de casa, numa festinha de despedida que não rolou de tanta preguiça.
Eu explico: Eu e Tati estamos de mudança. De quase meio-de-mato para definitivamente-meio-do-mato. Na sexta que vem, a esta hora, estaremos debaixo de outro teto.
E o polvo vai parar nas panelas da Carô. Hoje mesmo. Hoje mesminho. E sem segredos: nada de ficar batendo no coitado. Deixe-o cozinhar por nove minutos na panela de pressão com água, cebola e alho. Depois é só inventar uma salada portuguesa com batatas ou uma caldeirada de frutos do mar, um arroz de forno, um risotto italiano, carpaccio, canapé, tapas, guisadinho, sopa e por aí vai. Tudo de polvo!
Bem, eu preciso de uns quinze dias. Sete e meio para encaixotar e sete e meio para desencaixotar tudo e também resolver as questões da internet - porque na casa nova do mato, fiquei sabendo que a conexão será através de rádio (!).
Então pelas minhas contas, no dia 4 de setembro estarei de volta, querido leitor! Só em setembro. Até lá!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O paraíso

O moribundo em seu leito lamentava a vida equivocada que tecera durante os anos de sua existência. Ainda lhe restava um fiozinho de fôlego, que poderia durar um piscar lento de olhos, ou quem sabe, o tempo de assar um boi no rolete. Precisava achar uma solução para os erros, a burrice, a imaturidade e a incompetência que rotularam sua história. Mesmo sendo de bom coração, não se contentava por não ter conseguido sequer construir uma pilha de dois tijolos. Sentia-se um ninguém, uma mancha de óleo de batatas fritas num córrego límpido. Por alguns momentos tentava aceitar o papel de desgraçado que lhe fora designado, como acontece no universo teatral, mas nem convencido era de que o havia interpretado com louvores. O perfeito desgraçado. Um desgraçado bem sucedido. Nem isso. Desanimado, voltava à estaca zero e virava-se de lado, mas o corpo não o obedecia. Ah, se pudesse voltar e desculpar-se com quem encontrasse pela frente. Se pudesse, tentaria outros caminhos, alinharia os passos ou se esconderia num canto escuro para nunca mais atrapalhar o mundo.
Se pudesse voltar de verdade, acabaria com a vida no exato momento do parto - aproveitaria a oportunidade de um cordão umbilical e o enrolaria todinho em seu pescoço, muito bem apertadinho. Então pronto. Achada a solução, decidiu que finalmente podia morrer. E respirou aliviado. O paraíso era agora uma viagem ao passado para tornar-se novamente um embrião. Só precisava de um último sanduíche de mortadela

sábado, 15 de agosto de 2009

Gripe suína - como evitar

Por Dr. Marcio Bontempo, Médico Sanitarista
Press release: O médico Marcio Bontempo (CRM-DF 15458), especialista em Saúde Pública e naturopata, alerta como as pessoas adquirem a gripe suína (Influenza A - H1N1) e mostra como preveni-la através da alimentação, de produtos naturais e biológicos e dá outras dicas, além dos procedimentos de praxe.
Além das recomendações das autoridades sanitárias, como lavar as mãos com frequência, etc, existem providências que devem ser lembradas, ou conhecidas que, infelizmente, não fazem parte dos cuidados necessários, sendo que, muitos deles, são mais importantes do que as orientações oficiais. Primeiramente, tanto profissionais de saúde quanto pessoas comuns, devem saber que é necessário atuar no sentido de se possuir um sistema imunológico bem forte. Percebo que absolutamente nada está se fazendo nessa direção, de uma forma que se espalha o terror de uma nova doença, mas não se tomam as providências necessárias para reforçar o mecanismo de defesa do organismo da população, permitindo assim que todos estejam expostos à virose em questão. Por que as pessoas adquirem mesmo a gripe comum e o que fazer para fortalecer as defesas?
Para começar, é necessário saber O QUE ENFRAQUECE o nosso sistema imunológico, e isso não é divulgado (ou sabido?) pelas autoridades sanitárias. Sabe-se, cientificamente, que todos os vírus se beneficiam e se desenvolvem mais facilmente em ambientes orgânicos mais ácidos e, obviamente, quando o sistema imunológico está enfraquecido. E o que faz com que nosso ambiente sanguíneo fique mais ácido e o que diminui a força das nossas defesas? São os alimentos industrializados que tendem a criar e a manter um ambiente sanguíneo mais ácido.
Recomenda-se, portanto, evitar estes alimentos substituindo-os, sendo que esta abstenção já significa um grande passo para a prevenção de qualquer gripe e de muitas doenças.
Há alimentos particularmente úteis para reforçar a nossa imunidade, tais como o arroz integral, os subprodutos da soja (tofu, leite de soja líquido, misso), a aveia (rica em beta-glucana, um grande estimulador do mecanismo de defesa), o inhame, as verduras em geral, frutas frescas, a semente de linhaça, o gengibre, o alho, a cebola e outros.
Além das medidas anteriores, cientificamente sugere-se o seguinte:
O alho é rico em alicina, uma substância ativa que possui ação antiviral reconhecida, além de mais de uma dezena de outros componentes imunoestimulantes. Basta ingerir diariamente 3 a 5 dentes de alho cru picado, com os alimentos ou engolidos com água ou suco. Há o inconveniente do hálito, mas é passageiro, e mais vale a boa saúde do que o comentário alheio. Existem também suplementos à base de alho que não exalam odor, mas são caros. O óleo de alho em cápsula ou o alho em comprimidos não produzem o mesmo efeito do alho cru. O alho também é útil para evitar ou tratar uma grande quantidade de doenças. O problema do alho para crianças é a dificuldade para ingerir, mas com habilidade tudo é possível.
A própolis é reconhecida cientificamente como um antibiótico natural incluindo uma forte ação antiviral, tanto em situações de infecção quanto como para prevenção. Foram reconhecidos mais de 100 principios medicinais ativos da própolis. Deve-se usar o extrato alcoólico de própolis a 30%, na quantidade de 30 gotas, 3 a 4 vezes ao dia, em meio copo de água. Para crianças pequenas, metade da dose (lactentes e bebês, seguir orientação do pediatra). Pode-se colocar um pouco de mel para adoçar e reduzir o sabor e efeito da própolis na boca.
O gengibre é um alimento funcional reconhecido hoje cientificamente por seus poderosos princípios ativos. Foram isolados cerca de 25 substâncias, entre elas as famosas gengiberáceas, de grande ação estimulante do sistema de defesa do organismo e ação antiviral. Basta beber chá de gengibre fresco, forte, uma xícara 3 vezes ao dia, morno ou quente e sem adoçar.
O organismo e as células de defesa são regidos pela ação do sistema nervoso autônomo, representado pelos sistemas simpático e parassimpático: o primeiro é responsável pela produção granulócitos (de pouca ação viral e mais bactericida) e o segundo de linfócitos (de ação antiviral direta). Devido à agitação da vida moderna e ao estresse, as pessoas apresentam um excesso de atividade do sistema simpático (que produz adrenalina, cortisol, etc.., todos imunodepressores), com maior quantidade de granulócitos do que linfócitos, o que abre o caminho para viroses. É devido a isso que muitas pessoas adquirem uma gripe depois de um impacto emocional, notícia ruim, desavenças, tristezas, etc. É necessário proceder à redução da atividade simpática (redução do estresse,etc.) e promover maior estímulo parassimpático. Isso se consegue com mais repouso, menos agitação e preocupações, atividade física moderada, respiração profunda, alimentação natural integral, massagens terapêuticas, saunas, banhos quentes (tipo ofurô, banheiras, etc).
Importante é evitar a friagem e manter o corpo aquecido, principalmente as extremidades. A medicina ortomolecular e a fototerapia preconizam o uso de dois suplementos: a homeopatia, diferentemente da medicina farmacológica, atua estimulando a capacidade orgânica. Há uma fórmula homeopática para a preveção, tando da Influenza A (H1N1), quanto de qualquer outro tipo de gripe. Estes remédios podem ser adquiridos nas boas farmácias homeopáticas, e não fazem mal algum ou produzem efeitos colaterais. Se necessário, procurar um médico homeopata para a confecção de uma receita. Sempre importante em qualquer aspecto para uma saúde melhor.
Durante a gripe espanhola no começo do século passado, milhões de pessoas morreram, mas aqueles que lidavam com os doentes raramente contraiam o vírus. É que havia uma orientação para que o pessoal de serviço, médicos, enfermeiros, etc, usassem um saquinho de gaze com pedras de cânfora pendurados no pescoço. As emanações voláteis da cânfora esterilizam o ar em sua volte e protegem as mucosas. Então, aconselha-se a fazer o mesmo. Basta adquirir a cânfora na farmácia comum (algumas pedrinhas bastam), confeccionar uma bolsinha de gaze e pendurar no pescoço, podendo inclusive manter por dentro do vestiário, sem necessidade de deixar à mostra (se bem que o ideal é manter do lado de fora). Deve ser usado constantemente durante o contato com as pessoas. É uma boa dica para quem lida com pessoas ou trabalha em ambiente de aglomeração.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Combinações estranhas

Falando assim de repente de algumas combinações entre dois ingredientes, muita gente se assusta. Até experimentar.
Uma amiga me serviu rabanete com manteiga, bem apreciado na França, coisa que eu jamais teria tido a idéia de combinar. Estranho, mas bom.
Um casamento não mais estranho do que feijão de coco, este de origem pernambucana, que é um purê de feijão cozido e batido no liquidificador com temperos e um pouco de leite de coco. E o mais bizarro para nós, incultos de paladar com tanta coisa existente nesse mundão de Deus, é que é servido com peixe.
Na infância, via sempre minha irmã se deliciar com banana e catupiry. Até que um dia me toquei de que só poderia matar a curiosidade se abrisse a boca para experimentar. Bom também.
Um ótimo exercício para treinar o paladar é tentar imaginar o sabor das combinações com antecedência e depois prová-las para saber o quanto você é bom ou não. E com o tempo você vai ficando craque, ou, na primeira, percebe que tem o dom.
Sempre faço um desafio com os alunos, perguntando se conseguem imaginar o sabor de um pedaço de queijo parmesão. Após alguns segundos de olhos fechados, a maioria consegue. Depois peço para se lembrarem do sabor da ameixa preta. Ok. Até que vem o terceiro pedido: o de imaginar a mistura das duas coisas. Por fim, todos provam parmesão com ameixa preta, uma dupla que forma um bom petisquinho na ponta do palito.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Depois não diga que não avisei

O ano é de 2.058. Dinda procura por algo na cozinha, na velha cozinha septuagenária, mas não se lembra direito o que é. Vasculha daqui, remexe dali, coça o queixo e, ah sim, é o recipiente azul que está procurando. Nele estão guardadas as porções de chá de vitaminas complementares que o especialista em ossos lhe indicou. Caminha vagarosamente até o recipiente azul, mas abre com dificuldade, pois suas mãos agora trêmulas esqueceram-se das habilidades do passado. Coloca uma porção no cilindro de fibra ótica reciclada e enche de líquido bioingerível aquecido. Depois, liga o reciclador de oxigênio pós-inalado. Agora Dinda não cozinha mais, mas auxilia sempre que pode a nova mescladora de substâncias alimentares:
- No meu tempo era cozinheira que chamavam...
A moça era nova, começou sem muita experiência, mas fazia bem as combinações diárias do complexo auto-sustentável, o que antes chamávamos de ingredientes.
Dinda senta-se na cadeira, com certa dificuldade pelos joelhos endurecidos, enquanto a moça mistura a pasta de batatas sintética com um pouco de gordura monocalórica em pó. Corta a embalagem de tomates desidratados e os mete de molho em uma solução de vinagre de vinho transclonado. Por fim, despeja uma medida de favas-agulhinhas - uma espécie híbrida de arroz com feijão - no processador de inchaço de grãos e cereais.
Dinda olhava com saudosismo para suas antigas panelas, que ajeitadas decoravam alguns cantos da cozinha, quando ouviu na teleplasma de nanochip as notícias do dia:
- A segunda edição do Jantar do Século aconteceu ontem, após 50 anos de sua idealização. Os filhos dos chefs que participaram do primeiro jantar executaram o cardápio para 80 pessoas, como aconteceu no evento histórico de 2008. Politicamente corretos, fizeram um banquete beneficente e reverteram a venda dos convites a núcleos sociais carentes. Mas cerca de 700 manifestantes que protestaram do lado de fora, revoltaram-se, exigindo mais uma vez que o governo providencie meios de produção natural de alimentos. Afinal de contas, os pratos oferecidos contavam com verduras e legumes raríssimos e de altíssimo valor, inacessíveis para 99% da população. Dentre eles, a exótica alface crespa e a delicada berinjela baby, cultivadas em bolhas, nas terras suspensas dos laboratórios da FGV (Fazenda Gourmet Virtual), diretamente da seção de Reprodução do Ontem. A polícia controlou o tumulto jogando bombas de odor de efeito moral.
Num suspiro melancólico, Dinda, virando-se agora para a moça distraída com seus afazeres, desabafou:
- Que saudades do cheiro de terra despoluída. E da minha hortinha...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O mar em extinção

A cena mais chocante que vi num desses documentários sobre a chamada sopa de plástico existente nos oceanos, foi a de um isqueiro achado dentro da barriga de um peixe. E segundo um biólogo, eles engolem lixo marítimo porque não sabem distinguir o que podem e o que não podem comer, ou seja, mordiscam tudo o que encontram pela frente - afinal de contas estamos falando de peixes e não de cães farejadores. Mas sei que a cena que me chocou não passa de um grãozinho de areia perto da grandeza do problema da poluição dos mares. Veja no link:
http://www.youtube.com/watch?v=1Bal8FKAY04&feature=related