DISCURSOS GASTRONÔMICOS E MACARRÔNICOS

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Papilas gustativas: seu desejo é uma ordem!


A foto acima é um pedaço de filé mignon fresco. Mas o que vou temperar aqui, exageradamente, é este texto. Portanto, caro leitor blogueiro, arrume um copo d'água com ENO sabor Guaraná.
Já me falaram que faço, às vezes, dramalhão mexicano. Eu aceito, mas posso chamar de dramalhão almodovariano? Acho que tem mais a ver com minhas origens.
Bem, o assunto aqui, pra variar, é comida. E procuramos comida por três motivos. Fome, desejo de saciar o paladar e carência (que não cabe a mim destrinchar: estou no divã e não na poltrona de trás).
Quando o estômago reclama pedindo comida, quem escolhe o que vai comer é o nosso paladar, certo? Ele procura nos arquivos da memória os sabores todos catalogados e faz o cardápio completo. Quando temos escolha, é isso o que acontece. A gente seleciona o que vai comer, diante de uma mesa de buffet por exemplo, ouvindo as papilas gustativas: “hum, isso é uma delícia, esse outro aqui eu adoro...” Ou você escolhe dessa forma?: “Esse tem vitamina C, esse aqui tem Ômega 3...” Bem, quando a ordem parte de sua nutricionista o assunto é outro, eu sei. Qual é a criança que come escarola, fígado ou abobrinha mesmo tendo fome? Quem quer sentir o gosto de uma "comida ruim?" Com o passar do tempo, aprendemos a apreciar as variações dos sabores.
Mas antes de concluir o texto, quero deixar claro que, se fosse dramalhão, eu colocaria a pauta de outra maneira, já que sou simpatizante de bolero e do Romantismo, ingredientes quentes. Veja se não daria um bom caldo:

Mais um dia se findava
Não tornara o grande amor
Minha vida tão lascada
Era um grande dissabor

E dos tolos dias mórbidos
Só restavam obrigações
As físicas, as cívicas
Para honrar os meus culhões

Sentindo o vazio das vísceras
Alertou-me o paladar
E sem muito rebusqueio
Pus-me logo a lamentar

De que caça me serviria?
Da terra, do ar, do mar?
A dúvida me carcomia
E o estômago pedia
Qualquer coisa abocanhar

A despensa convidava
Eram fartos mantimentos
Num lampejo veio afobada
Reparei nos movimentos
D'uma pobre perdiz acuada

A cena da mesa posta
Num instante ela se fez
Com vinho, velas e risos
E falta de escrúpulos na tez

Fiz a pobre de refém
pois a língua, pobre de mim,
Assim me fez também

Mas onde quero chegar: não existiria nada disso aqui, nem gastronomia e milhões de profissionais da área, nem marketing, indústrias e empresas, se não fosse necessário trabalhar para atender aos desejos e caprichos sedutores do paladar, instalado no mais audacioso órgão do corpo humano: a língua. Seria esta coitada o demônio que nos induz a cometer o pecado da Gula? Agora podem falar que faço dramalhão.

Foto: Regina Bui

Um comentário:

Carol disse...

Se a gente prestar bem atenção esse pedaço de carne pode parecer uma foto de uma língua com Zoom!