Perdoe-me, caro leitor blogueiro, se pareço mal-criada. Geralmente costumo ser mais sutil com a linguagem, mas como no Orkut existe uma comunidade com esse nome, achei muito apropriado usá-lo como título para postar o link abaixo.
DISCURSOS GASTRONÔMICOS E MACARRÔNICOS
quinta-feira, 31 de julho de 2008
segunda-feira, 28 de julho de 2008
sábado, 26 de julho de 2008
Etiqueta & Ignorância

“por rebuscados que sejam os bons pratos e suntuosos os acessórios, não há prazer da mesa se: o vinho é ruim, os convivas juntados sem escolhê-los, as fisionomias tristes, a refeição consumida às pressas” Brillat-Savarin (1.825)
Participei de um banquete feito especialmente para o advogado de um dos empresários mais bem sucedidos de nosso país. O serviço, impecável. No menu, sopa de mexilhão, tartare de salmão com temperos asiáticos e risoto de camarão com shimeji. Garçons atentos e uma sommelier à disposição, que apresentava os vinhos que acompanhavam os pratos. Depois disso, uma variedade de doces desfilaram sobre a mesa. Ao final, café e petit four como mimos para fechar o jantar com chave de ouro.
No dia seguinte a anfitriã não recebeu flores. Mas ganhou uma exortação, a de que não havia colocado talher para peixes na mesa, “como pede a etiqueta!...”Eu não sei se pergunto à Glorinha Khalil ou à Danusa Leão onde é que a anfitriã errou de fato, mas tenho certeza, caro leitor blogueiro, de que a resposta está na ponta da sua língua.
Sempre que vejo histórias desse tipo me lembro do samba da Beth Carvalho: “Ô coisinha tão bonitinha do pai, ô coisinha tão bonitinha do pai. Você vale ouro, todo o meu tesouro...”
Foto: Regina Bui
No dia seguinte a anfitriã não recebeu flores. Mas ganhou uma exortação, a de que não havia colocado talher para peixes na mesa, “como pede a etiqueta!...”Eu não sei se pergunto à Glorinha Khalil ou à Danusa Leão onde é que a anfitriã errou de fato, mas tenho certeza, caro leitor blogueiro, de que a resposta está na ponta da sua língua.
Sempre que vejo histórias desse tipo me lembro do samba da Beth Carvalho: “Ô coisinha tão bonitinha do pai, ô coisinha tão bonitinha do pai. Você vale ouro, todo o meu tesouro...”
Foto: Regina Bui
Entre amigos
Tem coisa melhor do que um amendoinzim, um queijim, uma azeitonim, uns croquetins, uma cervejim e uma caipirim pra comemorar reforma de apartamento? Parabéns Carolzim e Paulim, pelo novo espaço! E pra mim, que estava longe da cozinha, foi um ótimo relax.
domingo, 20 de julho de 2008
Por onde andará o Zoom?
Se me perguntarem o nome verdadeiro desse nordestino porreta não saberei dizer. Só sei que ele era muito bravo. Fulminava com o olhar a qualquer um que o atrapalhasse na cozinha, apesar da aparência fragilizada. Zoom trazia alguma coisa de revolta dentro de si, talvez pela história de vida sofrida, mas com dignidade agarrou com unhas e dentes as oportunidades que lhe surgiram na carreira de cozinheiro. Unhas muito bem cuidadas se bem me lembro, e os dentes, afiadíssimos - iguais aos palavrões que soltava. Era dono, porém, de um coração imenso e de uma sensibilidade ultra feminina. Por isso alguns o odiavam e outros nem tanto. Mas Zoom era muito calejado para sentir ou se deixar abater por qualquer manifestação de preconceito. Dizia estar cansado da cozinha e sonhava mesmo em fazer um curso de cabeleireiro. Quando o conheci, era ele o responsável pelo preparo da comida dos funcionários, garçons e ajudantes de cozinha. Pontualmente às onze da manhã, antes do restaurante abrir, ele avisava ao primeiro que passasse: “A comida tá pronta. Chama a cadelada!!!”
Escargot, que hipocrisia!
Os apreciadores das lesminhas, na verdade, gostam é dos molhos que as acompanham. E daqueles graciosos pratinhos com cavidades para aninhá-las. Ervas ou alho na manteiga promovem e enaltecem até carne de gato, quando substitui lebre. É possível comer ostras sem o sal e o limão. Já as lesminhas... Tentem apreciá-las sem molho algum, tentem. Depois me digam se acharam chique.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Esse coqueiro que dá côco

A redundância é parente próxima do óbvio ululante. Frases-chavão de auto-ajuda também se encaixam nessa categoria e merecem o rótulo. A filosofia barata entrou na minha vida através das balinhas Gotas de Pinho Alabarda, quem se lembra? A embalagem verde carregava lembretes que ditavam conselhos amorosos. Agora o Orkut virou um realejo eletrônico e traz diariamente sabedoria virtual gratuita, como a da semana passada: “O melhor profeta do futuro é o passado...”
Então, facciammo cosi un’insalatta di parole povere per mangiare com la fede.
Foto: Regina Bui
Foto: Regina Bui
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Ao mestre com carinho
no chão frio
congelo meus pés
trituro as frutas
converto o pó
derreto o queijo
retalho o pão
amolo o fio
amasso o alho
abafo o grão
e salgo a carne
e azeito as folhas
e mais três quilos de corações limpos
acendo o breu
misturo a sopa
tempero o caldo
esmago a dor
repito a dose
e corto o gelo
adoço a água
e compro um beijo
retiro a mesa
e rezo o amor
congelo meus pés
trituro as frutas
converto o pó
derreto o queijo
retalho o pão
amolo o fio
amasso o alho
abafo o grão
e salgo a carne
e azeito as folhas
e mais três quilos de corações limpos
acendo o breu
misturo a sopa
tempero o caldo
esmago a dor
repito a dose
e corto o gelo
adoço a água
e compro um beijo
retiro a mesa
e rezo o amor
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Thanksgiving
Como é que ninguém decretou ainda o dia de ação de graças brasileiro, já que temos tantos motivos interessantes para isso? Feriado nacional, aquecimento no comércio, comilança, ibope nas igrejas, assunto na TV, samba...
Temos o Dia da Pizza, que não é tão famoso assim, mas acho uma ótima maneira de lembrar a influência da imigração italiana (e dos nossos governantes) na nossa cultura. Foi servida uma pizza gigante em São Paulo esta semana, cujo diâmetro chegava a 2 metros, assada num forno construído especialmente para a data.
Será que nenhum historiador sabe do registro do primeiro náufrago, traficante ou degredado que serviu a primeira porçãozinha de mandioca frita com tiquira*, após o primeiro saque da colheita de alguma tribo indígena vizinha? Ora pois!
*Tiquira: aguardente de mandioca.
Temos o Dia da Pizza, que não é tão famoso assim, mas acho uma ótima maneira de lembrar a influência da imigração italiana (e dos nossos governantes) na nossa cultura. Foi servida uma pizza gigante em São Paulo esta semana, cujo diâmetro chegava a 2 metros, assada num forno construído especialmente para a data.
Será que nenhum historiador sabe do registro do primeiro náufrago, traficante ou degredado que serviu a primeira porçãozinha de mandioca frita com tiquira*, após o primeiro saque da colheita de alguma tribo indígena vizinha? Ora pois!
*Tiquira: aguardente de mandioca.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Apetite sexual
Cozinheiro
Dai, Senhor, o mais fino paladar
A quem tem por missão alimentar.
Drummond – Poesia Errante
A quem tem por missão alimentar.
Drummond – Poesia Errante
De médico, cozinheiro e louco todo mundo tem um pouco
Alimentos são de primeira, já disse em textos anteriores. Só esqueci de completar que são sagrados. Ignoramos suas propriedades curativas e deixamos de fazer o uso com esta intenção graças à lucrativa indústria farmacêutica.
Em 1948, escrevendo sobre o tema, o Dr. Alberto Seabra declarou estranha e profeticamente: “Confiemos que assim será o futuro e desconfiemos que do conhecimento mais perfeito e exato das coisas que nos cercam resultará um perigo muito grave para as farmácias e drogarias, na concorrência leal e sábia que lhes farão as vindouras casas de frutas, hoje tão modestas. Elas crescerão, estendendo-se por toda urbe paulopolitana, enquanto aquelas ir-se-ão, de mais em mais, reduzindo, até ficarem com o aspecto de ruínas, atestado arcaico das velhas superstições e crenças humanas”.
O discurso de que alimentação natural previne diversos tipos de doenças todo mundo conhece, mas prefere tomar um remedinho para soltar o intestino preso a comer maçãs ou mamão.
Depois que passei a ser menos hipocondríaca fiquei mais leve e mais feliz. Sou quase adepta da frase de Rita Lee: “quanto mais natureba, mais bacaneba”. Quase, porque estou longe de me tornar vegetariana, coisa que a pop star assume há anos. A questão aqui não é sobre isso, mas sobre se empanturrar de remédios ao invés de optar pela alimentação saudável (assim como a busca de tratamentos alternativos).
Tenho guardado na prateleira um dos meus livros prediletos de consulta, que relaciona quase todos os tipos de frutas, verduras, legumes e ervas medicinais com suas propriedades e aplicações – de dor de garganta à alergia da pele: A Saúde Brota da Natureza, do prof. Jaime Bruning. Só dispenso a urinoterapia, que isso é para os mais corajosos ou loucos.
Em 1948, escrevendo sobre o tema, o Dr. Alberto Seabra declarou estranha e profeticamente: “Confiemos que assim será o futuro e desconfiemos que do conhecimento mais perfeito e exato das coisas que nos cercam resultará um perigo muito grave para as farmácias e drogarias, na concorrência leal e sábia que lhes farão as vindouras casas de frutas, hoje tão modestas. Elas crescerão, estendendo-se por toda urbe paulopolitana, enquanto aquelas ir-se-ão, de mais em mais, reduzindo, até ficarem com o aspecto de ruínas, atestado arcaico das velhas superstições e crenças humanas”.
O discurso de que alimentação natural previne diversos tipos de doenças todo mundo conhece, mas prefere tomar um remedinho para soltar o intestino preso a comer maçãs ou mamão.
Depois que passei a ser menos hipocondríaca fiquei mais leve e mais feliz. Sou quase adepta da frase de Rita Lee: “quanto mais natureba, mais bacaneba”. Quase, porque estou longe de me tornar vegetariana, coisa que a pop star assume há anos. A questão aqui não é sobre isso, mas sobre se empanturrar de remédios ao invés de optar pela alimentação saudável (assim como a busca de tratamentos alternativos).
Tenho guardado na prateleira um dos meus livros prediletos de consulta, que relaciona quase todos os tipos de frutas, verduras, legumes e ervas medicinais com suas propriedades e aplicações – de dor de garganta à alergia da pele: A Saúde Brota da Natureza, do prof. Jaime Bruning. Só dispenso a urinoterapia, que isso é para os mais corajosos ou loucos.
Desconhecidos
(Longe da cozinha, ainda no divã).
A noite começava calma e sem brisa nenhuma. Nas lojas, pouco movimento. Sentei por um instante num banco do piso inferior daquele shopping aberto, ainda incomodada com as velhas questões de valores e conceitos que não desistiam de mim, não me deixavam relaxar. Observando as pessoas que passeavam, perguntava-me se realmente estava tudo bem, ou se secretamente não carregavam também aqueles tijolos quebrados, sobras de material de construçõezinhas medíocres que fazemos ao longo da vida, e que não podemos devolver a lugar nenhum – uma vez encomendados e não aproveitados, viram entulho psicológico. Sucatas emocionais. Iguais a esses modelos-padrão para viver que a maioria acredita, caso contrário não encontram um lugar ao sol. Consumismo, comportamento, moda, moradia bacana de acordo com as últimas tendências... Comigo não estava nada bem. O ser humano anda bem?
Peguei o carro tentando deixar o incômodo de lado. Não consegui. Mesmo assim seguia pro meu destino a 40 por hora e com o olhar desfocado das coisas - totalmente contrário do que deveria ser na frente da direção.Vários veículos ultrapassaram pela esquerda. Carros importados, carros velhos, ônibus, vans e motos. Alguns buzinaram pela minha lentidão. A pressa da rotina lhes pressionavam. Os faróis iluminaram um puxador de carroça que vinha pelo acostamento no sentido contrário e carregava uma criança sobre um grande saco amarrado de lixo reciclável. Aquela avenida larga dava acesso a várias entradas de condomínios de casas. Um ponto de ônibus do outro lado da pista abrigava algumas domésticas que voltavam para seus lares. No canteiro central a escultura feita de arame de um imenso cavalo.
Em alguns segundos tudo o que já estava desfocado acabou sumindo de vez. A realidade ao meu redor mudou. A matéria ficou invisível. Não havia ferro, concreto, tijolos. Não havia asfalto, postes, árvores, plásticos ou fios. O ponto de ônibus não estava lá, nem tampouco os muros dos condomínios. O que passou a se tornar nítido eram as formas humanas daquele lugar, estivessem elas onde quer que seja, e nada mais que pudesse escondê-las. Agora elas apareciam aos montes, atrás das supostas paredes das casas, nos bancos dos veículos que passavam, nos quarteirões próximos, até onde a vista se perdia. Também não havia rostos, roupas, anéis, sapatos. Nada que identificasse as pessoas. Apenas as formas, umas brancas, outras cinzas, vermelhas ou azuis. A cena lembrava uma atmosfera espiritual. Eram os mesmos corpos da cena de alguns segundos atrás, fazendo os mesmos movimentos, só que agora coloridos, leitosos, como espectros, como ectoplasmas, sólidos, nada ao redor os escondiam. Não havia o chão, apenas o infinito céu escuro acima de suas cabeças, de minha cabeça.
Tive que parar o carro subitamente e jogá-lo para fora do trajeto, não sabia mais o limite de distância do veículo que ia adiante de mim. Observava boquiaberta esses desconhecidos. Deduzi que se voltasse focar a matéria tudo voltaria ao normal, mas não fiz esforço para isso. Minha curiosidade, acompanhada de tamanho assombro, fazia com que eu me concentrasse ainda mais naquelas silhuetas coloridas.
Embora não enxergasse a matéria podia sentir o banco do carro, a direção e a porta ao meu lado fechada. Tudo continuava em ordem, também não houve alteração no ritmo das pessoas. “Meu Deus.” Respirei fundo. “O que é isso?” Fechei os olhos. “Não banco essa loucura.” Não estava num sonho. Alguns segundos com os olhos fechados me questionei o que fazia com que as pessoas tivessem essas diferenças de cor, que já nem sabia se eram internas ou externas. Tive certeza de que não se tratava absolutamente de diferença social. Inteligência? Saúde? A saúde do corpo é conseqüência da saúde emocional. Ou espiritual? Ou as cores definiam um conjunto de causas? Branco. Cinza. Vermelho. Azul. Pessoas de cores diferentes, lado a lado. Desconhecidos sem saber. As cores não indicavam que faziam parte de uma mesma família ou de um grupo de trabalhadores a espera do ônibus. Não havia nada que os caracterizasse como pessoas pobres ou ricas, feias ou bonitas, baixas, magras. Nenhum padrão que indicasse alguma classificação ou rótulo (para um julgamento). As cores das pessoas trariam então outros critérios para um julgamento se soubesse de seus significados? Ainda assim, julgamento (por isso não me importo em saber).
Abri os olhos e voltei a notar a matéria ao meu redor. As pessoas como antes. O som dos veículos, da ambulância que passava, da voz da criança sobre a carroça, que agora pedia alguma coisa pro pai. Esforcei-me para tentar focar novamente as cores dos que estavam ao meu alcance. Ainda mescladas à pele, sumiram lentamente.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Na alegria e a na tristeza, na saúde e na doença...

O nono foi hospitalizado e os filhos, netos e bisnetos vieram visitá-lo. Os médicos deixaram que os parentes o levassem para assim cumprir seu último desejo: o de morrer em casa, ao lado de seus queridos.
No quarto as visitas iam se revezando quando de repente o nono sentiu um aroma maravilhoso que vinha da cozinha. É que a nona estava tirando do forno assadeiras de pastieri di formaggio italiano.Os olhos do nono brilharam e ele mais que depressa se reanimou e pediu ao bisneto que estava ao lado da cama:
- “Piccolo mio, vai na cucina e pede um pezzo de pastiere pra nona!”O bambino foi e voltou muito rápido.
- “E o pastiere?” - perguntou o nono.- “A nona disse que no!”
- “Ma per che no, porca miséria?”
- “A nona disse... que os pastieri... é pro velório!”
Foto: Regina Bui
No quarto as visitas iam se revezando quando de repente o nono sentiu um aroma maravilhoso que vinha da cozinha. É que a nona estava tirando do forno assadeiras de pastieri di formaggio italiano.Os olhos do nono brilharam e ele mais que depressa se reanimou e pediu ao bisneto que estava ao lado da cama:
- “Piccolo mio, vai na cucina e pede um pezzo de pastiere pra nona!”O bambino foi e voltou muito rápido.
- “E o pastiere?” - perguntou o nono.- “A nona disse que no!”
- “Ma per che no, porca miséria?”
- “A nona disse... que os pastieri... é pro velório!”
Foto: Regina Bui
terça-feira, 24 de junho de 2008
A comida na literatura
Minha amiga Tati Fadel, professora de literatura e revisora oficial das abobrinhas que escrevo, publicou num jornal de Campinas o banquete de palavras que segue:
* * *
Eu sei que “nem só de pão vive o homem”. Também já me disseram incontáveis vezes que “os livros são o pão do espírito”. E é claro que entendo que o pão de que essas máximas repetidas à exaustão falam não é exatamente o pão que a cada dia mastigo junto ao café: são referências à necessidade humana de alimentar a alma. Mas queria agora fazer uma espécie de inversão dessa metáfora, e falar da relação visceral que encontro entre literatura e comida.
A cozinha pode ser cenário para boas histórias, algumas inclusive transformadas em filmes bastante saborosos. A Festa de Babette, por exemplo, é originalmente um romance da escritora dinamarquesa Isak Dinesen. Assim como o filme, o livro provoca reações imediatas de nossas glândulas salivares: a comida ricamente servida numa gélida aldeia da Dinamarca pela sofisticada francesa Babette enche os olhos, o estômago e o espírito dos amargos comensais com a mais divina alegria (creio que não é à toa que quase todos os ritos religiosos, de qualquer cultura, trazem a comida como metáfora da divindade: do pão e vinho dos cristãos às exóticas comidas dos orixás africanos, o que alimenta a alma toma forma na cozinha).
Eu me recordo de um livro favorito da infância, O Jovem Fazendeiro, que descrevia almoços e jantares fartos de uma família de pioneiros norte-americanos. Lembro com que gula e avidez relia as páginas que falavam de coisas que nunca chegaria a provar: picles de casca de melancia, açúcar-cande, tortas de abóbora, e mil sabores que podia apenas imaginar.
Mais tarde, descobri que a literatura, além de encher minha cabeça de idéias e interpretações do universo, era habilmente capaz de me abrir o apetite. Carneiro, por exemplo, nunca me apetecera, até que eu lesse a Ilíada. Pronto: terminada a leitura, lá estava eu, enlouquecida por aquele animalzinho tostado na brasa, tal qual Zeus pedia em sacrifício. Se era o que os heróis gregos comiam, era o que meu estômago desejava. Recentemente, lendo o clássico A cidade e as Serras, de Eça de Queirós, mal pude acreditar nas fantasias gastronômicas que povoaram minha mente quando o aristocrata Jacinto degusta uma sequência de pratos portugueses que o tiram de um inapetência entediada de anos e anos.
Eis a questão central que se coloca, então: se, quando tratam de comida, as palavras são capazes de provocar essas reações orgânicas, físicas, intensas e deliciosas, será que também não são capazes de provocar outras transformações, de outra ordem, quando tratam de outros temas? Este seria então o pão do espírito – as palavras que provocam amor quando falam de amor.
Palavras são mágicas e constroem o mundo, além de meramente representá-lo. Não estava com fome antes de ler sobre comida: os livros construíram a minha fome. Seriam então eles capazes de construir a minha paz, o meu delírio, o meu amor? Se assim for – o que desejo de verdade – mais que nunca, cuidemos da qualidade do pão do nosso espírito: que ele não esteja jamais embolorado.
A cozinha pode ser cenário para boas histórias, algumas inclusive transformadas em filmes bastante saborosos. A Festa de Babette, por exemplo, é originalmente um romance da escritora dinamarquesa Isak Dinesen. Assim como o filme, o livro provoca reações imediatas de nossas glândulas salivares: a comida ricamente servida numa gélida aldeia da Dinamarca pela sofisticada francesa Babette enche os olhos, o estômago e o espírito dos amargos comensais com a mais divina alegria (creio que não é à toa que quase todos os ritos religiosos, de qualquer cultura, trazem a comida como metáfora da divindade: do pão e vinho dos cristãos às exóticas comidas dos orixás africanos, o que alimenta a alma toma forma na cozinha).
Eu me recordo de um livro favorito da infância, O Jovem Fazendeiro, que descrevia almoços e jantares fartos de uma família de pioneiros norte-americanos. Lembro com que gula e avidez relia as páginas que falavam de coisas que nunca chegaria a provar: picles de casca de melancia, açúcar-cande, tortas de abóbora, e mil sabores que podia apenas imaginar.
Mais tarde, descobri que a literatura, além de encher minha cabeça de idéias e interpretações do universo, era habilmente capaz de me abrir o apetite. Carneiro, por exemplo, nunca me apetecera, até que eu lesse a Ilíada. Pronto: terminada a leitura, lá estava eu, enlouquecida por aquele animalzinho tostado na brasa, tal qual Zeus pedia em sacrifício. Se era o que os heróis gregos comiam, era o que meu estômago desejava. Recentemente, lendo o clássico A cidade e as Serras, de Eça de Queirós, mal pude acreditar nas fantasias gastronômicas que povoaram minha mente quando o aristocrata Jacinto degusta uma sequência de pratos portugueses que o tiram de um inapetência entediada de anos e anos.
Eis a questão central que se coloca, então: se, quando tratam de comida, as palavras são capazes de provocar essas reações orgânicas, físicas, intensas e deliciosas, será que também não são capazes de provocar outras transformações, de outra ordem, quando tratam de outros temas? Este seria então o pão do espírito – as palavras que provocam amor quando falam de amor.
Palavras são mágicas e constroem o mundo, além de meramente representá-lo. Não estava com fome antes de ler sobre comida: os livros construíram a minha fome. Seriam então eles capazes de construir a minha paz, o meu delírio, o meu amor? Se assim for – o que desejo de verdade – mais que nunca, cuidemos da qualidade do pão do nosso espírito: que ele não esteja jamais embolorado.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
C H O C O L A T E
Nem pensar em escrever aqui sobre a plantação do cacau e a história do chocolate com suas propriedades nutritivas.
Alguém se lembra desses tópicos quando coloca na boca uma colherada daquelas bem fofas de mousse, quando bebe uma xícara de chocolate quente e engrossado com creme de leite ou quando morde uma trufa recheada de nozes? Ninguém, a não ser que esteja querendo puxar papo (muito chato por sinal) por falta de assunto. Não há necessidade alguma de existir um papo quando se degusta um chocolate. Basta fechar os olhos.
E as misturas que o chocolate permite que façamos brutalmente a sangue frio? Já experimentou colocar na boca um pedaço de chocolate, tomar um gole de Amarula e em seguida outro de café? E o contrário? Café, chocolate e Amarula? Amarula, chocolate, café? Agora pegue um Drambuie e refaça as combinações...ai meu Deus!
Perdi as contas de quantas vezes assisti ao original da Fantástica Fábrica de Chocolate na Sessão da Tarde, com o Gene Wilder. Um rio de chocolate, o que era aquilo pra uma criança que detestava as sopas do jantar? O maior sonho de consumo que poderia caber num estômago.
Por falar em infância, lembrei que não bebo mais leite, mas continuo comprando Ovomaltine, uma perdição.
Outro dia no carro abri uma caixinha de passas ao chocolate da PAN (as de “cognac” havia devorado um dia antes). Estavam amolecidas e grudadas dentro do saquinho pelo calor do ambiente e não tive a opção de comer uma por uma. Imagine: em apenas três mordidas comi a massa de bolinhas amancebadas, que acabavam de derreter enquanto mastigava lentamente (só não podia fechar os olhos, estava dirigindo).
Quando como chocolate chego a sentir o paraíso ao meu redor. Uma Nhá Benta da Kopenhagen é o paraíso mais os anjos todos cantando ao meu redor.
Mas não é preciso comprar a loja da Godiva para ser feliz, basta considerar que tem hora pra tudo, inclusive comer guloseimas hidrogenadas no trânsito ou no cinema.
Lábios hidratados pelo chocolate... Não é uma ótima estratégia para dispensar os batonzinhos amanteigados? Iracema, a virgem dos lábios de mel, não sabe o que perdeu!
Benditas sejam as plantações de cacau e a história do chocolate, mas eu deixo para os que gostam de falar de boca cheia.
Alguém se lembra desses tópicos quando coloca na boca uma colherada daquelas bem fofas de mousse, quando bebe uma xícara de chocolate quente e engrossado com creme de leite ou quando morde uma trufa recheada de nozes? Ninguém, a não ser que esteja querendo puxar papo (muito chato por sinal) por falta de assunto. Não há necessidade alguma de existir um papo quando se degusta um chocolate. Basta fechar os olhos.
E as misturas que o chocolate permite que façamos brutalmente a sangue frio? Já experimentou colocar na boca um pedaço de chocolate, tomar um gole de Amarula e em seguida outro de café? E o contrário? Café, chocolate e Amarula? Amarula, chocolate, café? Agora pegue um Drambuie e refaça as combinações...ai meu Deus!
Perdi as contas de quantas vezes assisti ao original da Fantástica Fábrica de Chocolate na Sessão da Tarde, com o Gene Wilder. Um rio de chocolate, o que era aquilo pra uma criança que detestava as sopas do jantar? O maior sonho de consumo que poderia caber num estômago.
Por falar em infância, lembrei que não bebo mais leite, mas continuo comprando Ovomaltine, uma perdição.
Outro dia no carro abri uma caixinha de passas ao chocolate da PAN (as de “cognac” havia devorado um dia antes). Estavam amolecidas e grudadas dentro do saquinho pelo calor do ambiente e não tive a opção de comer uma por uma. Imagine: em apenas três mordidas comi a massa de bolinhas amancebadas, que acabavam de derreter enquanto mastigava lentamente (só não podia fechar os olhos, estava dirigindo).
Quando como chocolate chego a sentir o paraíso ao meu redor. Uma Nhá Benta da Kopenhagen é o paraíso mais os anjos todos cantando ao meu redor.
Mas não é preciso comprar a loja da Godiva para ser feliz, basta considerar que tem hora pra tudo, inclusive comer guloseimas hidrogenadas no trânsito ou no cinema.
Lábios hidratados pelo chocolate... Não é uma ótima estratégia para dispensar os batonzinhos amanteigados? Iracema, a virgem dos lábios de mel, não sabe o que perdeu!
Benditas sejam as plantações de cacau e a história do chocolate, mas eu deixo para os que gostam de falar de boca cheia.
sábado, 7 de junho de 2008
E para o Dia dos Namorados?

Olha, não tem dia mais corrido e confuso nos bastidores dos restaurantes do que o Dia dos Namorados. Muitos deles não se estruturam direito, querem a casa lotada e não respeitam nem mesmo quando o cliente faz reserva antecipadamente.
Por outro lado é sempre muito bom sair pra comemorar com a pessoa amada e curtir uma mesa farta e rica de sabores diversos.
Mas a opção de fazer um jantar surpreendente em casa fica fora de questão? Muitos não arriscam por não ter idéias de preparar coisas gostosas e ao mesmo tempo fáceis.
Quero encorajá-lo, caro leitor blogueiro, a colocar a mão na massa caso não queira passar nervoso em bares e restaurantes que preferem que você peça a conta rapidinho, juntamente com a sobremesa e o café.
Então comece pensando no ambiente do jantar. Compre velas e flores, troque a lâmpada do abajur por uma mais fraca e peça ao seu grande amor que providencie uma seleção de músicas apropriadas. Vamos ao cardápio.
De entrada você pode fazer, inclusive com antecedência, um caldo de mix de cogumelos picados, temperado com um pouco de vinho branco e sal. Para finalizar e dar um charme todo especial, coloque delicadamente algumas gemas inteiras de ovinhos de codorna (separe com cuidado das claras para não quebrar) e deixe cozinhar por 1 minuto. Outra opção é uma sopa de mandioquinha com creme de leite fresco e sal. Nesta, salpique folhas picadinhas de coentro ou de cheiro verde para decorar.
No segunda entrada, monte no centro dos pratos um mini buquê de folhas de alface crespa, rúcula e radicchio. Tempere com azeite, sal, limão siciliano ou vinagre balsâmico. Isso agrada a gregos e troianos, não? Para acompanhar e adornar a salada, escolha um ingrediente como tomatinho cereja, queijo de cabra em bolinhas, aspargos frescos cozidos ou coração de alcachofra. Se quiser algo mais ousado para acompanhar somente as folhas, decore com alguns gomos de fruta do conde ou lichia, que combinam com um vinagre frutado no lugar do balsâmico e do limão.
O prato principal deve ser rápido e simples de preparar, sem que você fique cheirando a fritura ou a algum tipo de cozido. O que acha da idéia de um penne com salmão defumado (que praticamente vem pronto)? Assim que a massa estiver al dente, o salmão deve estar picado e ligeiramente refogado em uma frigideira com azeite de oliva extra virgem e endro (dill) fresco. Qualquer coisa pode substituir o salmão. Camarões rosa, mix de cogumelos (caso não sirva o primeiro caldo de entrada), pesto de rúcula com macadâmia e palmito pupunha com erva doce. E que tal um risoto italiano no lugar da massa, usando essas mesmas opções de ingredientes?
Para a sobremesa, mais simples e delicioso impossível: sorvete de chocolate branco com calda de frutas vermelhas (cozinhe em fogo baixo a polpa com um pouco de açúcar) e lascas gigantes de chocolate ao leite para finalizar o prato.
Amado leitor blogueiro, garanto que depois de um jantar desses, desagradável mesmo ficará somente a louça para lavar no dia seguinte se você não tiver quem o faça. Mas isso não tem pressa.
Bom apetite!
Foto: Regina Bui
Por outro lado é sempre muito bom sair pra comemorar com a pessoa amada e curtir uma mesa farta e rica de sabores diversos.
Mas a opção de fazer um jantar surpreendente em casa fica fora de questão? Muitos não arriscam por não ter idéias de preparar coisas gostosas e ao mesmo tempo fáceis.
Quero encorajá-lo, caro leitor blogueiro, a colocar a mão na massa caso não queira passar nervoso em bares e restaurantes que preferem que você peça a conta rapidinho, juntamente com a sobremesa e o café.
Então comece pensando no ambiente do jantar. Compre velas e flores, troque a lâmpada do abajur por uma mais fraca e peça ao seu grande amor que providencie uma seleção de músicas apropriadas. Vamos ao cardápio.
De entrada você pode fazer, inclusive com antecedência, um caldo de mix de cogumelos picados, temperado com um pouco de vinho branco e sal. Para finalizar e dar um charme todo especial, coloque delicadamente algumas gemas inteiras de ovinhos de codorna (separe com cuidado das claras para não quebrar) e deixe cozinhar por 1 minuto. Outra opção é uma sopa de mandioquinha com creme de leite fresco e sal. Nesta, salpique folhas picadinhas de coentro ou de cheiro verde para decorar.
No segunda entrada, monte no centro dos pratos um mini buquê de folhas de alface crespa, rúcula e radicchio. Tempere com azeite, sal, limão siciliano ou vinagre balsâmico. Isso agrada a gregos e troianos, não? Para acompanhar e adornar a salada, escolha um ingrediente como tomatinho cereja, queijo de cabra em bolinhas, aspargos frescos cozidos ou coração de alcachofra. Se quiser algo mais ousado para acompanhar somente as folhas, decore com alguns gomos de fruta do conde ou lichia, que combinam com um vinagre frutado no lugar do balsâmico e do limão.
O prato principal deve ser rápido e simples de preparar, sem que você fique cheirando a fritura ou a algum tipo de cozido. O que acha da idéia de um penne com salmão defumado (que praticamente vem pronto)? Assim que a massa estiver al dente, o salmão deve estar picado e ligeiramente refogado em uma frigideira com azeite de oliva extra virgem e endro (dill) fresco. Qualquer coisa pode substituir o salmão. Camarões rosa, mix de cogumelos (caso não sirva o primeiro caldo de entrada), pesto de rúcula com macadâmia e palmito pupunha com erva doce. E que tal um risoto italiano no lugar da massa, usando essas mesmas opções de ingredientes?
Para a sobremesa, mais simples e delicioso impossível: sorvete de chocolate branco com calda de frutas vermelhas (cozinhe em fogo baixo a polpa com um pouco de açúcar) e lascas gigantes de chocolate ao leite para finalizar o prato.
Amado leitor blogueiro, garanto que depois de um jantar desses, desagradável mesmo ficará somente a louça para lavar no dia seguinte se você não tiver quem o faça. Mas isso não tem pressa.
Bom apetite!
Foto: Regina Bui
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Coq au Vin
E por falar em carne rija com vinho, onde é que eu encontraria um galo se quisesse fazer essa clássica e velha receita? Só se eu percorresse os sítios das redondezas de onde moro. Mesmo assim estaria correndo o risco de levar um tiro de sal na bunda, pois por aqui os galos não são criados para morrer na panela. Carne de galo é muito dura mesmo, mas sendo a estrela principal desse famoso prato, fica horas e horas no fogo até ser degustado. Aqui no Brasil não tem muita popularidade e o frango comum acaba substituindo o pomposo rei da galinhada quando alguém resolve reproduzir a receita com o vinho tinto.
Independente do seu sabor, o galo para mim é um dos bichos caseiros mais interessantes que existem e, por coincidência, meu signo no horóscopo chinês. Além da beleza estética e de seus arrogantes penachos é possuidor de uma altivez natural e ao mesmo tempo tão frágil - mas disto ele não sabe. A sorte dele é que ninguém liga pra ele a não ser as galinhas de seu terreiro, então, ele que fique de bico calado caso esteja insatisfeito por madrugar, porque Coq au Vin está praticamente esquecido dos cardápios da gastronomia de hoje. Azar nosso!
Independente do seu sabor, o galo para mim é um dos bichos caseiros mais interessantes que existem e, por coincidência, meu signo no horóscopo chinês. Além da beleza estética e de seus arrogantes penachos é possuidor de uma altivez natural e ao mesmo tempo tão frágil - mas disto ele não sabe. A sorte dele é que ninguém liga pra ele a não ser as galinhas de seu terreiro, então, ele que fique de bico calado caso esteja insatisfeito por madrugar, porque Coq au Vin está praticamente esquecido dos cardápios da gastronomia de hoje. Azar nosso!
sábado, 31 de maio de 2008
Comida de primeira, de segunda e de quinta!

Conheci um blog de duas jornalistas cujo nome, Garotas de Segunda, é um trocadilho interessante com esse velho e conhecido conceito que diz: tudo o que é quase desprezível ou de menor qualidade torna-se de segunda categoria. Não que elas sejam ou usem o blog para retalhar ainda mais o que não é valorizado, muito pelo contrário. As meninas afirmam existir “muita coisa de segunda que é de primeiríssima”, como ritmos latinos, uma balada trash, pastel de feira e um bom bife de fígado acebolado. Dizem ser vítimas de TPS (Tensão Pré-Segunda), além de se intitularem escritoras de segunda, fotógrafas de segunda, cozinheiras de segunda e assim por diante.
Confesso que fico bem feliz quando alguém revela uma percepção, ainda que intuitiva, de que algumas coisas, mesmo subestimadas, têm boas qualidades.
Nenhum alimento, seja de natureza animal ou vegetal, pode ser considerado de segunda.
Músculo de boi, se cozido na panela de pressão com vinho por quase 2 horas, derrete na boca como algodão doce e se der na louca de algum chef famoso oferecer como prato principal num restaurante parisiense, gourmets pagarão com satisfação a carne de segunda e ainda comerão de joelhos.
Eu vivo dizendo que, se fosse raríssimo encontrar galinhas que botassem ovos, estes valeriam tanto quanto valem as trufas e seriam considerados um verdadeiro “manjar dos deuses”, até crus.
Pepino, almeirão, sardinha, manjuba, jiló, mandioca, banana, rabo de boi, nada disso pode ser chamado de “comida de segunda”. Digo ser este sim um verdadeiro pecado. Se esses ingredientes caem nas mãos de quem sabe tratá-los com destreza e talento, não ficam devendo nada a ninguém. Assim como alimentos que são considerados “de primeira”, perdem seu trono num instante se mal preparados.
O que pode tornar um prato de segunda são os temperos-base que acompanham todos os nobres ingredientes da natureza. Os temperos devem ser escolhidos e misturados com cuidado, para que não mascarem o sabor das carnes, dos legumes, dos peixes, das verduras ou das frutas. Um azeite puro pode fazer de um simples maço de cambuquira com abobrinha caipira uma salada inesquecível, assim como temperos duvidosos e artificias colocam qualquer confit de canard na prateleira dos pratos de quinta categoria.
Foto: Regina Bui
Confesso que fico bem feliz quando alguém revela uma percepção, ainda que intuitiva, de que algumas coisas, mesmo subestimadas, têm boas qualidades.
Nenhum alimento, seja de natureza animal ou vegetal, pode ser considerado de segunda.
Músculo de boi, se cozido na panela de pressão com vinho por quase 2 horas, derrete na boca como algodão doce e se der na louca de algum chef famoso oferecer como prato principal num restaurante parisiense, gourmets pagarão com satisfação a carne de segunda e ainda comerão de joelhos.
Eu vivo dizendo que, se fosse raríssimo encontrar galinhas que botassem ovos, estes valeriam tanto quanto valem as trufas e seriam considerados um verdadeiro “manjar dos deuses”, até crus.
Pepino, almeirão, sardinha, manjuba, jiló, mandioca, banana, rabo de boi, nada disso pode ser chamado de “comida de segunda”. Digo ser este sim um verdadeiro pecado. Se esses ingredientes caem nas mãos de quem sabe tratá-los com destreza e talento, não ficam devendo nada a ninguém. Assim como alimentos que são considerados “de primeira”, perdem seu trono num instante se mal preparados.
O que pode tornar um prato de segunda são os temperos-base que acompanham todos os nobres ingredientes da natureza. Os temperos devem ser escolhidos e misturados com cuidado, para que não mascarem o sabor das carnes, dos legumes, dos peixes, das verduras ou das frutas. Um azeite puro pode fazer de um simples maço de cambuquira com abobrinha caipira uma salada inesquecível, assim como temperos duvidosos e artificias colocam qualquer confit de canard na prateleira dos pratos de quinta categoria.
Foto: Regina Bui
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