DISCURSOS GASTRONÔMICOS E MACARRÔNICOS

domingo, 23 de março de 2008

Um conto de Felicitylândia Town

Era uma vez uma província longínqua chamada Felicitylândia Town. No banquete feito para o memorial de trezentos anos de morte do último rei a ocupar o trono, a soberba orquestra tocava afinada para a ex-família imperial, e também para os felicitylandeses mais importantes. Todos chegaram pontuais e eufóricos, pois o último grande evento acontecera há cinco décadas, no banquete do memorial de 250 anos de morte do mesmo rei.
Na hora do jantar, foram servidos de entrada caldos mornos em seqüência: o de aspargos frescos, o de tomilho e o de tomates-do-campo. Por debaixo da mesa, viam-se os pés das mulheres de 40 a 50 anos, caracterizados como ditava a moda elitista, com sapatos laranja-adamascados e fivelas acobreadas, assim como os homens, que seguiam tudo à risca, com seus mocassins de pontas falicamente empinadas, em tom beterraba-da-terra. Algumas mulheres deixavam de sentir o sabor da comida e dos instrumentos musicais, por estarem descontentes com o peso, com o suor em demasia, com o perfume vencido ou com o tamanho das joanetes. Outras distraíam-se entre as colheradas, observando seus homens de sobrancelhas levantadas discutirem os problemas de arbitragem do último campeonato de críquete.
O prato seguinte foi uma salada de hortaliças crocantes de duas cores, e queijo brie assado, coberto com sálvia e mel. À mesa, identificavam-se com facilidade as moças com idade entre 14 e 21 anos, cujos cabelos pareciam sair da mesma revista, de mesmo corte e cor, sendo levados de um lado e de outro na hora de ajeitar o penteado, como num movimento meigo e sincronizado entre elas. Uma ou outra moça estava infeliz com o resultado da cirurgia plástica dos seios, e não percebeu, portanto, a harmonia dos temperos e do oboé. Outras ainda, não satisfeitas com seus narizes, orelhas ou unhas, fixavam o olhar num horizonte imaginável, suspirando por romances impossíveis de finais felizes.
O próximo prato adiantou-se pelo seu aroma antes mesmo de chegar à mesa. Um magret de pato em emulsão de framboesas e zimbro fazia com que as camisas douradas-mico-leão dos rapazes de 20 a 30 anos se destacassem em contraste com a cor do molho. Alguns deles se irritavam quando percebiam que avaliavam seus bíceps, um pouco inferiores ao tamanho ideal, e deixavam assim de desfrutar o prazer do paladar e do violoncelo, enquanto outros se ocupavam em contar quantas das meninas poderiam se encaixar no gabarito imposto pela exigente e criteriosa sociedade felicitycense.
O último prato chegou como num desfile nas mãos dos serviçais. Em fila, colocaram-no delicadamente à frente dos convidados, que administravam suas posturas de etiqueta. As trouxinhas de massa fresca recheadas com cogumelos do bosque e manteiga de salmão soltavam um leve vapor e encontravam-se na atmosfera festiva com as notas dos violinos. Os senhores de 60 ou 70 anos destrinchavam os casos de doença na conversa e limpavam a boca com os guardanapos de pano, que logo voltavam sobre suas coxas, vestidas com calças azul-divino de micro-matelassé. As senhoras, com todas as jóias de herança de família que lhes cabiam no corpo e chateadas com suas invencíveis rugas, queixavam-se umas com as outras sobre a incompetência de suas faxineiras, enquanto os segredos do prato se perdiam, com a doce melodia.
De sobremesa, sorbet de mirtilo e licor de pêra a vontade, motivo de sobra para lamber os dedos, se o protocolo permitisse.
Fim do jantar. Pratos retirados, maestro concentrado. Hora da homenagem, da memória, das fotos para a coluna social, do discurso, da emoção e do bolo. Ao final, todos aplaudiram lisonjeados e sorridentes e abraçaram-se inflamados e entupidos dos vinhos da melhor espécie. Depois disso, voltaram para suas casas felizes e orgulhosos, previsivelmente fazendo do evento o assunto das próximas cinco décadas.

2 comentários:

Anônimo disse...

por acaso felicitylândia tem campineiros como habitantes?????

regina disse...

qualquer semelhança é mera coincidência...