DISCURSOS GASTRONÔMICOS E MACARRÔNICOS

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quarta-feira

Dia de vento, chuva a toa, cheiro de terra molhada. O sol quer um lugar, por enquanto não achou. Cozinha aberta para quem vier, janelas de caras fechadas.
Tem canjica e chá de casca de abacaxi engrossando o cardápio infinito de bom que compõe a mesa do café matinal. Hoje é dia de fazer mais queijo, uma leva de dez.
A orquestra das panelas recomeça. Dinda põe tudo em movimento, como se só de olhar as coisas rodopiassem no ar até tomarem novos lugares, de prontidão, na mais leve harmonia, como música clássica.
Ensaia uma piapara igual filosofia. Enquanto isso, mexerica nas mãos, separa os gomos, e dos gomos os caroços e as peles: "daqui sai compota." O amarelo da farinha sugere uma farofa. Vê de novo a piapara, mas combina com cuscuz. Então limpa o peixe, esfrega com punhado de sal grosso, como se tivesse que o proteger de algum mal. Agora as mãos ficam leves, de criança: apanha os ovos com delicadeza, um a um, aninha o todo no fundinho da caneca d’água. Amassa a pasta verde, tempero e alma desse cuscuz. Uma parte da sardinha se banha no caldo, pelando, que já cai de cara na farinha seca. A outra parte, decoração da massa quente, coloca de lado. A pelota se forma e a mistura do vidro inteirinho de azeite dá maciez, e faz-de-conta, serve de ungüento.
Mas a cozinha quer calor. Um tacho de óleo se esquenta para encrespar pedaços de batata-doce, aos montes.
O peixe quando sai do forno, segura com força a fumaça que se aloja na carne úmida e quente, até o corte do primeiro pedaço romper a capa crocante da pele. Depois se esfria no cuscuz gelado, esquenta outra vez na polpa mole da batata-doce, e por fim, se arde todo no molho do limão-cravo.

6 comentários:

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

chuva?

meu sonho... mes que vem vamos aí tá?

Regina Bui disse...

Vamos esperando, com ou sem chuva!
bjs

Anônimo disse...

Nossa saber escrever é td de bom né mesmo????
Até sentí o cheirinho deste cuscuz,,,hummmmmmm trem bão !!!!
Aí , que este talento da escrita eu não tenho, meus dons são de outras artes.
Pra compensar né...rs
Poxa imagino que sua comida deve ser boa demais´...Quem cozinha com esta sensibilidade, só pode saír quitutes de lamber os beiços....rs
Onde fíca seu restaurante???

beijocas nas bochechas!
mineira

Regina Bui disse...

Mineira,
não tenho e nem trabalho em restaurante. Faço jantares e coquetéis e dou aulas em espaços gourmets. Que bom que gostou!
beijos

Foquinha! disse...

"Esfrega com punhado de sal grosso, como se tivesse que o proteger de algum mal. Agora as mãos ficam leves, de criança..."

Isso é prósa da boa, de uma intensidade sublime. E somos todos 'chefs' de uma mesmíssima sintonia. Enquanto sua cabeça elabora vasto cardápio, momentaneamente as nossas cozinham...

Carinhos,
Foquinha!

Regina Bui disse...

Importante isso que você disse: "cozinhar" (seja um cardápio ou o próprio diabo), para virarmos "chefs de uma mesma sintonia". Já pensou que maravilha se o mundo todo fosse assim?
beijos